quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Dádiva

Carrego uma dádiva de santos
Carrego milagres
Rego flores com meu pranto
Planto amores em meu prato
Parto em dores
Sofro em partes

sábado, 24 de outubro de 2009

Há um filme...

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...que me marcou muito.

Como qualquer pessoa melodramática, eu sou feita dos retalhos das histórias contadas por outros que se mesclam na construção da minha própria história. Sou uma amálgama dos filmes que vi, dos livros que li, das músicas que escutei. Sou um híbrido de tudo o que o já falaram com o que eu não consigo dizer.

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Acho que comecei a gostar de cinema quando percebi o quanto essa linguagem podia me tocar tão profundamente e o quanto ela era essencial para despertar em mim tantas emoções.
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Quando vi Uma vida iluminada senti-me incrivelmente tocada. É claro que eu já me senti assim tantas e tantas e tantas vezes... Mas a delicadeza na construção deste roteiro me cativou de forma especial.
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Eu enxergo o mundo por lentes mais escuras, o que me dá uma perspectiva mais sombria de tudo. Poderia dizer que não sou do tipo “otimista”, mas sou sensível a coisas belas (e sujas! como diriam os adeptos do cine clandestino europeu), talvez como conseqüência da minha própria identidade clandestina ou desterritorializada...
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E é justamente a territorialidade da identidade o que se busca no filme. De maneira tragicômica, muitas vezes bizarra, um personagem esquisito, um tanto caricato, mergulha num mundo completamente desconhecido e distante para, justamente aí, encontrar sua história.
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O cenário central do filme é a Ucrânia e o enredo poderia só tratar de temas como a guerra, nazismo, perseguição a judeus, migração e novos começos. Mas, na verdade o filme vai bem além disso. Ele fala do tempo, que não congela as influências, mas as reconstrói. Fala de tolerância entre diferentes, tão iguais em suas essências. Fala de memórias, impossíveis de serem esquecidas e histórias que precisam ser contadas. Fala de amizades. De escolhas. Fala da vida e, é claro, fala de batatas...
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Numa das cenas finais do filme, quando o personagem principal encontra o que estava buscando recebe de presente uma caixa de coisinhas colecionadas por uma pessoa importante para a história dele. Nesta caixa havia um bilhete escrito “Se acaso...”. A irmã da dona da caixa pergunta se ele sabe o que isso significa e ele responde que não. Mas depois fala que ela podia querer dizer que “Se acaso alguém me procurar... Se acaso alguém um dia quiser saber minha história...”. Era ali, na caixinha, que estava a essência daquela pessoa, era ali que ela estava.
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Nunca ouvi nada mais profundo do que aquele “Se acaso...”.
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Não acho que exista coisa mais bela e reveladora que a simplicidade daquele momento.
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É isso que faz uma vida ser iluminada!

Veja filmes!
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Uma Vida Iluminada
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Título original: Everything is Illuminated
País: Estados Unidos
Ano: 2005
Diretor: Liev Schreiber
Roteiro: Liev Schreiber, adptação da obra “Tudo se ilumina” de Jonathan Safran Foer
Elenco: Eugene Hutz - Alex, Elijah Wood - Jonathan Safran Foer, Jonathan Safran Foer, entre outros...
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segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Quarto


Eu tenho um quarto em minha casa dedicado ao meu passado.
Lá estão as memórias empoeiradas e as recordações abandonadas da minha vida.
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Ele é um quarto sombrio, habitado por seres invisíveis que se multiplicam a cada instante. Eu sempre abro esse quarto, para permitir que a luz entre e ilumine os restos de vida que deixei por lá. Minha esperança sempre é conservar esse lugar limpo e agradável, mas, por mais que eu tente, ele continua sujo e empoeirado. Eu teria que passar a vida toda só arrumando o passado pra sentir que ele está limpo! Mas, não tenho paciência pra tanto!

Minha relação com o quarto se resume em arrumar e desarrumar coisas velhas. Mexer e remexer as lembranças. Já pensei muitas vezes em jogar tudo fora, queimar, doar... Já pensei em simplesmente esquecer.
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Mas isso me assusta!

Às vezes penso que tudo o que existe no quarto faz parte do quebra-cabeça que me forma, aquilo tudo sou eu. Esquecer seria me perder, jogar-me fora e desconsiderar quem sou.

Hoje decidi arrumar o quarto.
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Tenho que pensar mil vezes antes de fazer isso, porque eu tenho alergia à poeira do quarto e sempre fico doente depois de deixar tudo em ordem.
Que ironia... Será que meu passado me faz tão mal assim?
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sábado, 26 de setembro de 2009

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Gira

Descobri que eu só consigo escrever em momentos de euforia. E os meus momentos de euforia (infelizmente) não duram tanto... Parece que eu só me sinto à vontade com as palavras quando os sentimentos não conseguem mais caber em mim e eu preciso vomitá-los para continuar vivendo. Daí, não são meus dedos que digitam palavras, nem minha mente que articula orações. Todo o meu corpo vibra junto, escreve junto, pulsa... Como posso explicar o que sinto agora? Tenho sido consumida por uma euforia que eu senti poucas vezes antes. Desde que eu acordo até a hora de dormir eu sinto uma euforia que me impele a buscar o que a alimenta. Meu corpo treme... Eu choro, rio, falo sozinha, escrevo e não paro de buscar o que me inebria. Meu vício... uma prisão... a liberdade.

Não tenho sentido vontade de sair de casa. Aqui mesmo me basto. Com uma garrafa de vinho, as músicas e o “estímulo para minhas retinas”. Minha alma pulsa...

Acho que novamente algo está se quebrando. Sinto meu espírito rachar... ao meio. Sinto tudo rangendo aqui dentro. Como porta velha quando é aberta. Como o casulo de onde nascem as borboletas... “para viver pouco tempo...”

Será que esse é o fim?

Todo (re)começo traz em si a semente do fim!

Eu vivo começando... Nem sei se chego a terminar! Mas, sempre começo!
Comecei a aprender a dirigir, a falar francês, inglês, a tocar violão, fazer teatro, cinema... comecei... Eu sempre começo!

Terminei de assistir Guerra e Paz... Demorou uma eternidade... mas terminei! O que é de ser passivo me encanta e (geralmente) eu termino. Por isso vejo filmes... muitos filmes!
Ser protagonista custa caro! Expor-se custa a vida. A vida perdida na percepção de outras pessoas. A vida escondida que se quer revelada. Nunca quis perder a vida! Por isso não protagonizo.... agonizo...

Volto novamente ao tema de sempre em minha vida: contradições e fuga... Será que algum dia escreverei sobre algo diferente disso?

Um dia me disseram que eu era muito autobiográfica... Isso para mim soava mal... Parecia que eu não tinha olhos para nada além de mim. Longe de achar feio o que não é espelho, como diria Caetano. Mas o espelho me trazia as imagens mais interessantes para serem mostradas. Mas, eu pensava que seria mais “útil” falar sobre as coisas que acontecem por aí... política, cultura, natureza, pessoas, etc, etc, etc... Passei tanto tempo tentando escrever sensivelmente sobre essas coisas e, para meu espanto, até quando pensava em algo além de mim, era de mim que eu falava... Era o mundo em mim que eu questionava, eram as minhas contradições, eram as minhas esperanças e os meus medos... era eu!

Hoje não quero mais fazer nada que seja “útil”... tenho tendido para o fútil e aceito-me autobiográfica, ainda que sinta que o mundo em mim é tão parecido com outros mundos em si, que me redimo de ser egocêntrica.

O meu mundo tem girado... a vida tem rodado e tudo está em movimento...

terça-feira, 1 de setembro de 2009

It’s a race for rats to die!


Se você não tem nada a dizer pra que escrever?

Escrever é algo que sai naturalmente, como uma necessidade orgânica que você não racionaliza muito pra fazer. Mas, há quem diga que é o contrário: escrever pode ter muito mais de transpiração do que de inspiração. Trabalho, duro trabalho, é o que produz grandes coisas. Será mesmo?

Come on fallen star, I refuse to let you die!

Detesto quando as pessoas colocam frases em outro idioma no meio do texto... Tenho que usar de minha criatividade ou consultar um dicionário pra saber o que a pessoa estava pensando.

It’s a maze for rats to try!


Tolero poucas coisas nesta vida… Imagino eu que tenha tolerado bem mais em vidas passadas. Hoje só relevo... Mesmo os assuntos de relevo... eu relevo!

Passei a acreditar que as coisas têm bem menos importância do que a gente tenta crer. Na verdade, dar importância para as coisas é nossa maneira desesperada de achar que existe algum sentido. É nossa busca forçada por razões.

Detesto os “porquês”. As pessoas me cansam com suas perguntas... Por que assim e não assado? Porque branco e não preto? O que você acha? O que prefere? Tem certeza?
E o pior não são as perguntas. O pior é a necessidade de uma resposta! Nossa!!! Como me cansa alguém não aceitar um “eu não sei”. Ou quando as pessoas insistem querendo que você responda algo que faça sentido pra elas (de novo a busca pelo sentido...). Não tem nenhum sentido nisso!!!! As minhas razões, meus porquês, minhas respostas são tão minhas que dificilmente outra pessoa conseguiria escutar. Muitos podem ouvir. Mas escutar...
Fuja da tentação de tentar explicar-se para os outros. Fuja!

RUN AWAY!!!

Corra!!! Fuja deles antes que te peguem e te convençam que algo tem sentido.
Corra!!! Tudo sempre vai ser uma corrida e uma fuga. Então corra!

It’s a race for rats to die!

Todos podem ser o que quiserem! Mas não morra no caminho que não seja o seu!
Nem diga que se perdeu!

Eu sou só influências e contradições.
Adoro o caos que trago em mim.
Acho que nunca conseguiria viver em paz.
Paz...
Além do slogan, que é isso??
Adoro o caos que me consome e me inebria.
Adoro a angústia que não me deixa.
Adoro o que me impulsiona.
Adoro...


All it takes is one decision
A lot of guts, a little vision
To wave your worries
And cares goodbye



Citações de Centrefolds e Slave to the wage – Placebo
Compartilho as idéias… As outras angústias são minhas....

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Poemas passados

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Caiu na minha mão a gema verde de um ovo podre
Escorreu pelos meus dedos a água suja que já foi clara
Desceu pelo ralo a gosma amarga que nos prepara

Lateja o meu corpo em vísceras cruas de uma vida ardente

É meio asco, meio liberdade
Meio nojo, medo podre
Meio inteiro todo em parte

É o esgoto opaco de uma vida ocre
Uma fratura exposta
O pus e o caralho
É a lama imunda de uma alma usada
A roupa rasgada e um dia inteiro
A mão virulenta e uma ferida amarga
A boca que cospe um sorriso ligeiro

Preciso ponteiro que deu certo as horas
Foi mesmo no alvo da carne sangrenta
Fincou um punhal, mordeu com o canino
Findou com um sinal: acabou o destino...
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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Para bens, o mal

De vez em quando o mal supera o bem em criatividade e qualidade de enredo.
O mal é mais autêntico, mais visceral, mais real e, por isso mesmo, mais rico em possibilidades e mais dinâmico.



Dicotomia mal-dita essa...


São os dois um só, mas só vemos separado. É a dança deles que, rodopiando, viram o mundo em faces de beleza e crueldade. Fases da mesma face. Faces da mesma lua.


Hoje começa mais uma fase.


Repleta de faces ocultas. Cheia de frases já ditas. Imersa em destinos cruzados.


Hoje termina mais uma fase.


Vazia de sentidos sabidos. Oca de promessas findadas. Emersa de um transe constante.



E tudo continua igual...
A vida e sua ânsia banal
As fugas em delírio carnal
O conflito, a dúvida e tal
O bem, que nem sempre é o mal



O medo, o vazio e o caos...



E tudo muda a cada instante...
As peças e os livros na estante
Os sonhos e esperanças são infantes
Os planos pro amanhã são mutantes
O mal que torna o bem tão distante


A vida, a partida e mais...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Do que é leve e pesa no ar


Se o barulho da chuva não a tivesse acordado ela dormiria aquela tarde inteira.

Houve um tempo em que a chuva a fazia dormir. Houve um tempo em que o ar parecia menos denso quando chovia. Um tempo distante. Perdido e ausente.

O que era presente era incerto. Certezas se desmancham como os pingos da chuva na janela e escorrem devagarzinho, uma depois da outra, todas ganhando força e se arrastando até o chão. Certezas vivem em vão...

Mas aquele ar era denso. Saturado de ironia e tédio. Carregado de nostalgia e dúvida. Impregnado da sensível frieza de uma tarde chuvosa. Era o ar de outros tempos, que, de tempos em tempos, voltava pra ela.

Antes de levantar ela fez o que sempre fazia: imaginou uma vida vazia, tirou as coisas do lugar, varreu todos os pensamentos, colocou de lado os descontentamentos e tentou, mais uma vez, se encontrar.

Viu-se sentada ao relento, deixando-se sucumbir ao vento. Sozinha e, desta vez, sem alento. Sentiu-se pó lançado ao vento, de uma leveza tão grande que pesava no ar.

Numa leveza tão grande que pesava no ar...

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segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Autenticidade é plágio (?)

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- Ela é incapaz de ser autêntica...
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- Ah, discordo! Ela é autêntica sim. A questão é que a autenticidade dela é só a cópia das referências que ela reconhece.
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- Então... Isso significa que ela não é autêntica. É só cópia.
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- Não necessariamente. Não somos capazes de reproduzir as coisas tal qual recebemos... Sempre colocamos um pouco de nós no que externalizamos. Sempre interpretamos.
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- Certo. Mas, o que eu tô falando é que ela só interpreta... Não consegue produzir algo que seja seu, com sua cara, com seu jeito. O jeito dela, as ações, os gestos, os pensamentos, as palavras... Tudo parece ter saído de um livro, ser refrão de uma música ou ser alucinação de algum artista francês dos anos sessenta... Parece que ela não pensa! Só repete, como papagaio, o que já foi dito...
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- Mas, e quem não repete? Alguns de forma mais sutil, outros de maneira mais despudorada, mas todos nós repetimos o que outros de nós já pensaram. Você tá querendo que ela tenha um ímpeto de criação original?
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- Nem tanto. Mas, um pouco de originalidade não seria mau... Mas, a questão aqui não é nem a originalidade – essa já dá outro livro inteiro... – o problema mesmo é a autenticidade. Eu só estou falando que ela devia ser quem ela é...
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- E você, em sua sábia iluminação, tem a audácia de dizer que ela não está sendo quem ela é? Ora! Como você pode falar isso de alguém? Por acaso você a conhece tão bem assim pra afirmar que ela não está sendo quem é? E, por acaso, pode criticar se ela é, e quer ser, a interpretação de outros que já foram? Pra mim, autenticidade é cópia... Plágio mal acabado de um idealismo romântico. Ser autêntico é interpretar as influências. Produzir é re-produzir-se. Fazer é re-fazer-se. Construir é re-construir-se... Não estamos mais no sétimo dia da criação... Já passamos do oitavo... As grandes revoluções já aconteceram. Agora vivemos uma revolução individual a cada dia, que nos refaz a cada momento. Hoje tudo está num movimento tão acelerado que penso que tudo já foi dado... Não há mais nada de novo pra fazer. E isso não significa que tudo acabou, que chegamos ao fim. Os finais são sempre inícios, não é? Nosso desafio perpétuo agora parece ser a constante arte de reinventar as coisas e os significados das coisas... Como exigir que alguém, ou algo, seja romanticamente autêntico neste mundo? Como não exigir que sejamos todos realmente autênticos em nossas interpretações? Desculpa se estou ferindo teus ideais... Mas é difícil não pensar que amanhã você usará tudo o que eu estou dizendo agora em outro círculo de amigos, em outro espaço, com outras pessoas, pra puxar uma conversar ou pra levantar uma polêmica. Tanto quanto seria ingênuo achar que o que eu penso já não foi pensado ou dito antes por tantos outros que li, ouvi, digeri e vomitei... É assim que as coisas são... Você ainda acha que ela não é autêntica?

domingo, 4 de janeiro de 2009

O caminho


Estava na porta de saída, mas ainda via o caminho da entrada.

As pedras cintilavam agora mais que nos outros dias. Era o sol que brilhava mais naquela noite. Era a lua.
Soltei os dados que escorreram até os meus pés.

Seis. Quatro. Três. Um. A arte.

Lembrei de tudo até ali e pensei em voltar, mas o caminho era abismo e o retorno incerto. Olhei novamente para a saída e vi dois arbustos, um banco e tochas. Era o sonho!

Lembrei o que devia fazer, mas não queria fazer...

Olhei mais uma vez para trás e vi o cachorro com olhos brilhantes. Eram as pedras do meu caminho. Entendi que não podia mais... Segui!

No banco ele me esperava com paciência.

Há séculos estava ali. Por séculos ficaria.

Ele não me olhou. Já sabia o que eu diria. Apenas esperou.

Ainda estava assustada e não sabia se devia perguntar. Tomei coragem e falei, quase num sussurro noturno:

- Preciso saber o seu nome.
- Você já sabe.
- Não consigo lembrar.
- Então não é hora.
- Por favor... não posso voltar.
- Então siga.
- Como vou saber se este é o caminho?
- Parando de perguntar...

As tochas ardiam em meu rosto e não era mais possível ficar.

Peguei novamente os dados. Arrumei todas as cartas e lancei pela última vez.

- Segue o teu caminho, ele disse. Não importa para onde ele vai te levar... O caminho é a história e ela sempre acaba num abismo. Não importa o que você espera encontrar. A única busca é o caminhar...