terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Para bens, o mal

De vez em quando o mal supera o bem em criatividade e qualidade de enredo.
O mal é mais autêntico, mais visceral, mais real e, por isso mesmo, mais rico em possibilidades e mais dinâmico.



Dicotomia mal-dita essa...


São os dois um só, mas só vemos separado. É a dança deles que, rodopiando, viram o mundo em faces de beleza e crueldade. Fases da mesma face. Faces da mesma lua.


Hoje começa mais uma fase.


Repleta de faces ocultas. Cheia de frases já ditas. Imersa em destinos cruzados.


Hoje termina mais uma fase.


Vazia de sentidos sabidos. Oca de promessas findadas. Emersa de um transe constante.



E tudo continua igual...
A vida e sua ânsia banal
As fugas em delírio carnal
O conflito, a dúvida e tal
O bem, que nem sempre é o mal



O medo, o vazio e o caos...



E tudo muda a cada instante...
As peças e os livros na estante
Os sonhos e esperanças são infantes
Os planos pro amanhã são mutantes
O mal que torna o bem tão distante


A vida, a partida e mais...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Do que é leve e pesa no ar


Se o barulho da chuva não a tivesse acordado ela dormiria aquela tarde inteira.

Houve um tempo em que a chuva a fazia dormir. Houve um tempo em que o ar parecia menos denso quando chovia. Um tempo distante. Perdido e ausente.

O que era presente era incerto. Certezas se desmancham como os pingos da chuva na janela e escorrem devagarzinho, uma depois da outra, todas ganhando força e se arrastando até o chão. Certezas vivem em vão...

Mas aquele ar era denso. Saturado de ironia e tédio. Carregado de nostalgia e dúvida. Impregnado da sensível frieza de uma tarde chuvosa. Era o ar de outros tempos, que, de tempos em tempos, voltava pra ela.

Antes de levantar ela fez o que sempre fazia: imaginou uma vida vazia, tirou as coisas do lugar, varreu todos os pensamentos, colocou de lado os descontentamentos e tentou, mais uma vez, se encontrar.

Viu-se sentada ao relento, deixando-se sucumbir ao vento. Sozinha e, desta vez, sem alento. Sentiu-se pó lançado ao vento, de uma leveza tão grande que pesava no ar.

Numa leveza tão grande que pesava no ar...

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segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Autenticidade é plágio (?)

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- Ela é incapaz de ser autêntica...
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- Ah, discordo! Ela é autêntica sim. A questão é que a autenticidade dela é só a cópia das referências que ela reconhece.
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- Então... Isso significa que ela não é autêntica. É só cópia.
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- Não necessariamente. Não somos capazes de reproduzir as coisas tal qual recebemos... Sempre colocamos um pouco de nós no que externalizamos. Sempre interpretamos.
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- Certo. Mas, o que eu tô falando é que ela só interpreta... Não consegue produzir algo que seja seu, com sua cara, com seu jeito. O jeito dela, as ações, os gestos, os pensamentos, as palavras... Tudo parece ter saído de um livro, ser refrão de uma música ou ser alucinação de algum artista francês dos anos sessenta... Parece que ela não pensa! Só repete, como papagaio, o que já foi dito...
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- Mas, e quem não repete? Alguns de forma mais sutil, outros de maneira mais despudorada, mas todos nós repetimos o que outros de nós já pensaram. Você tá querendo que ela tenha um ímpeto de criação original?
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- Nem tanto. Mas, um pouco de originalidade não seria mau... Mas, a questão aqui não é nem a originalidade – essa já dá outro livro inteiro... – o problema mesmo é a autenticidade. Eu só estou falando que ela devia ser quem ela é...
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- E você, em sua sábia iluminação, tem a audácia de dizer que ela não está sendo quem ela é? Ora! Como você pode falar isso de alguém? Por acaso você a conhece tão bem assim pra afirmar que ela não está sendo quem é? E, por acaso, pode criticar se ela é, e quer ser, a interpretação de outros que já foram? Pra mim, autenticidade é cópia... Plágio mal acabado de um idealismo romântico. Ser autêntico é interpretar as influências. Produzir é re-produzir-se. Fazer é re-fazer-se. Construir é re-construir-se... Não estamos mais no sétimo dia da criação... Já passamos do oitavo... As grandes revoluções já aconteceram. Agora vivemos uma revolução individual a cada dia, que nos refaz a cada momento. Hoje tudo está num movimento tão acelerado que penso que tudo já foi dado... Não há mais nada de novo pra fazer. E isso não significa que tudo acabou, que chegamos ao fim. Os finais são sempre inícios, não é? Nosso desafio perpétuo agora parece ser a constante arte de reinventar as coisas e os significados das coisas... Como exigir que alguém, ou algo, seja romanticamente autêntico neste mundo? Como não exigir que sejamos todos realmente autênticos em nossas interpretações? Desculpa se estou ferindo teus ideais... Mas é difícil não pensar que amanhã você usará tudo o que eu estou dizendo agora em outro círculo de amigos, em outro espaço, com outras pessoas, pra puxar uma conversar ou pra levantar uma polêmica. Tanto quanto seria ingênuo achar que o que eu penso já não foi pensado ou dito antes por tantos outros que li, ouvi, digeri e vomitei... É assim que as coisas são... Você ainda acha que ela não é autêntica?

domingo, 4 de janeiro de 2009

O caminho


Estava na porta de saída, mas ainda via o caminho da entrada.

As pedras cintilavam agora mais que nos outros dias. Era o sol que brilhava mais naquela noite. Era a lua.
Soltei os dados que escorreram até os meus pés.

Seis. Quatro. Três. Um. A arte.

Lembrei de tudo até ali e pensei em voltar, mas o caminho era abismo e o retorno incerto. Olhei novamente para a saída e vi dois arbustos, um banco e tochas. Era o sonho!

Lembrei o que devia fazer, mas não queria fazer...

Olhei mais uma vez para trás e vi o cachorro com olhos brilhantes. Eram as pedras do meu caminho. Entendi que não podia mais... Segui!

No banco ele me esperava com paciência.

Há séculos estava ali. Por séculos ficaria.

Ele não me olhou. Já sabia o que eu diria. Apenas esperou.

Ainda estava assustada e não sabia se devia perguntar. Tomei coragem e falei, quase num sussurro noturno:

- Preciso saber o seu nome.
- Você já sabe.
- Não consigo lembrar.
- Então não é hora.
- Por favor... não posso voltar.
- Então siga.
- Como vou saber se este é o caminho?
- Parando de perguntar...

As tochas ardiam em meu rosto e não era mais possível ficar.

Peguei novamente os dados. Arrumei todas as cartas e lancei pela última vez.

- Segue o teu caminho, ele disse. Não importa para onde ele vai te levar... O caminho é a história e ela sempre acaba num abismo. Não importa o que você espera encontrar. A única busca é o caminhar...