sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Do que é leve e pesa no ar


Se o barulho da chuva não a tivesse acordado ela dormiria aquela tarde inteira.

Houve um tempo em que a chuva a fazia dormir. Houve um tempo em que o ar parecia menos denso quando chovia. Um tempo distante. Perdido e ausente.

O que era presente era incerto. Certezas se desmancham como os pingos da chuva na janela e escorrem devagarzinho, uma depois da outra, todas ganhando força e se arrastando até o chão. Certezas vivem em vão...

Mas aquele ar era denso. Saturado de ironia e tédio. Carregado de nostalgia e dúvida. Impregnado da sensível frieza de uma tarde chuvosa. Era o ar de outros tempos, que, de tempos em tempos, voltava pra ela.

Antes de levantar ela fez o que sempre fazia: imaginou uma vida vazia, tirou as coisas do lugar, varreu todos os pensamentos, colocou de lado os descontentamentos e tentou, mais uma vez, se encontrar.

Viu-se sentada ao relento, deixando-se sucumbir ao vento. Sozinha e, desta vez, sem alento. Sentiu-se pó lançado ao vento, de uma leveza tão grande que pesava no ar.

Numa leveza tão grande que pesava no ar...

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Um comentário:

julio miragaia disse...

por "acaso" te encontro aqui. quanto tempo cassandra. palavras tão confessionais...