Sábado passado fui à Mostra do Jodorowsky do Clube de Cinema esperando conhecer um pouco do cine chileno.
Por alguma ingenuidade não disfarçada eu tratei de atrelar a obra do diretor, nascido no Chile, com algum tipo de expressão imagética da cultura do país... Talvez fosse um pouco de euforia por ver, inicialmente, uma mistura tão esquisita: um judeu, descendente de ucranianos, que nasceu no Chile e foi atuante nos movimentos da contracultura e surrealismo dos anos 60... Bom, eu estava ansiosa pra saber no que isso ia dar e tinha, em meu íntimo, uma curiosidade peculiar em saber como este latinoamericano havia traduzido estes movimentos de desconstrução de formas e conteúdos para a realidade do país onde ele havia nascido...
Hehehehe... É na expectativa que se constroem os estereótipos e se forjam os pré-conceitos. Minha alma e meu olhar, que em termos de América Latina estavam preparados apenas para os rompimentos estéticos do cinema novo brasileiro ou, no máximo, para o engajamento do novo cine latinoamericano, que se forjava na década de 60, não esperava Jodorowsky.
A arte dele parece quase inclassificável, inenquadrável, inrotulávil... Todos os "in", que tanto podem significar "sem" quanto podem significar "com" (dentro), parecem dizer bem o que vi dele. Ele pode ser ou pode não ser, pode dizer ou não dizer, pode estar lá ou não... Sua narrativa parece uma metafísica visual, onde os planos estão bem além dos planos... O filme parece se passar em alguma dimensão que está entre a tela e o olho de quem vê e a compreensão, igualmente, está neste espaço suspenso. Ele brinca com símbolos, propõe perversões, joga com os sentimentos mais viscerais que podemos ter e depois simplesmente se redime, para começar tudo de novo... Ele nos mostra crus, despidos das máscaras, indefesos e perversos.
O cinema de Jodorowsky experimenta formas, testa conceitos, propõe encontros espirituais, é complexo em sua essência e transcende. Para ele, o cinema tem que servir para uma "abertura de consciência", nos seus planos de um cinema voltado para uma psicomagia.
Fundador do Movimento Pânico - alusão ao deus Pan que se manifestaria através de três elementos básicos: terror, humor e simultaneidade - Jodorowsky ficou pouco tempo no Chile. Aos 17 anos já estava em Paris, trabalhando como assistente de mímico. Suas obras foram filmadas na França e no México, onde filmou um dos seus filmes mais conhecidos: "El Topo", que conquistou o interesse do beatle John Lennon, que até comprou os direitos de distribuição do filme.
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| El Topo - México, 1970 |
Jodorowsky é um artista multifacetado... Já atuou como ator, diretor de cinema e teatro, produtor, compositor, escritor, autor teatral, filósofo, humorista, mestre de quadrinhos e, ainda por cima, é especialista em tarô.
Ele fez parceria com Jean Cocteau e seu Teatro do Absurdo, teve fragmentos do seu filme “A montanha mágica” em clip do Marilyn Manson na década de 80, já foi considerado por muitos críticos como “filho de Fellini com Artaud”, é admirado pelo David Lynch e hoje faz militância mística, atendendo os interessados em consultas ao tarô todas as quartas num café parisiense...
Da França ele acompanha a evolução do cinema mundial e ainda faz planos de conseguir traduzir para a película um dos seus pensamentos mais profundos que diz que "o cinema deve ter a mesma força de uma pílula de LSD. Deve entrar no inconsciente e provocar um choque espiritual".
É...
A mim, depois de ver estraçalhadas minhas expectativas ingênuas e superficiais, resta aceitar que este latinoamericano de múltiplas influências consegue ser autêntico em sua rica obra que, sem dúvida, provoca vários choques.
Pra quem gosta de cine, segue o seu manifesto...
Por Alejandro Jodorowsky
1a. LIÇÃO Sentar-se do amanhecer ao anoitecer na frente de uma árvore sentindo a luz. Voltar por sete dias seguidos e fazer o mesmo.
2a. LIÇÃO Voltar à noite com uma lanterna e iluminar a árvore por infinitos pontos distintos.
3a. LIÇÃO Colocar-se a um quilômetro da árvore. Olhar para ela fixamente e avançar centímetro por centímetro em direção a ela até que, depois de algumas horas, se choque o tronco com o nariz. (As duas primeiras lições servem para desenvolver o sentido da luz. A terceira para desenvolver o sentido da distância).
4a. LIÇÃO Colocar-se em um interior ou paisagem e mover-se pensando que seu próprio peito fotografa, depois pensando que a sua cara fotografa, depois o sexo, depois as mãos.
5a. LIÇÃO Coloque-se em um lugar e sinta que você é o centro dele. Logo sinta que está sempre na superfície ao redor do lugar. Ao final rompa a idéia de centro e superfície. Está aí, tudo está em você e fora de você ao mesmo tempo. Você é a parte do lugar. Existe o lugar. Você desapareceu!
6a. LIÇÃO Procurar a cor que não tem cor. Pegue uma página branca e veja suas cores. Pegue uma página preta e veja suas cores. Veja as cores de um vidro transparente. Descubra o arco-íris em um pedaço de terra, em um cuspe, em uma folha seca. Expresse a cor com materiais sem cor. Na verdade lhe pergunto, você sabe quantas cores tem a pele da sua cara?
7a. LIÇÃO Sinta as pontas dos seus dedos como se fossem a ponta da sua língua. Apóie as pontas dos dedos nos objetos do mundo pensando que são frágeis, que uma pequena pressão pode quebrá-los. Peça-lhes permissão antes de tocá-los. Antes de apoiar os dedos na sua superfície, sinta como penetra na sua atmosfera. Aprenda a sentir e a acariciar com respeito. Qualquer ação que faça no mundo com as suas mãos ou corpo pode ser uma carícia.
8a. LIÇÃO Pense que os atores vivem dentro de um corpo como centro de uma caverna. Peça-lhes que não gritem com a sua boca, e sim dentro de sua boca. Que não se expressem com a cara, e sim com vibrações. Viva debaixo da superfície. A superfície do rio não se move, mas você sabe que leva correntes profundas.
9a. LIÇÃO Não importam os movimentos de câmera. Ela deve mover-se somente quando não puder ficar quieta. Você leva o alimento na mão. A câmera é um cão. Faça-a seguir com fome o alimento. A fome faz com que o animal se apague. Não há cão, não há fome, não há câmera. Há acontecimentos. Você nunca pode comer a maçã inteira no mesmo instante. Tem que dar mordiscadas. Enquanto come, você tem uma parte. Deve saber que o pedaço que mastiga não é a maçã inteira. Você nunca pode ter a maçã inteira na boca porque por maior que seja a sua boca, não pode caber nela o fruto que é parte da árvore nem a árvore que é parte da terra. A tela é a sua boca. Ali entram pedaços. Partes do acidente. Não tente trabalhar com planos absolutos. Não creia que existe o plano melhor. Se pode morder a maçã em qualquer lugar. Se a maçã é doce, não importa onde você comece a comê-la. Preocupe-se com a maçã, não com a sua boca. Cineasta! Antologia de fragmentos, você também tem um fragmento, seu filme inconcluso, você é parte, é continuação. Não há encerramentos. Mate a palavra fim. Você começará um filme no dia em que ser conta que você simplesmente continua. Não procure o prestígio. Desdenhe os efeitos. Não adorne. Não pense o que a imagem vai produzir. Não a procure. Receba as imagens. A caça está proibida. A pesca está permitida.
10a. LIÇÃO Nunca trabalhe no papel seus movimentos de câmera. Chegue aos lugares pensando que você não irá mover a câmera, que não irá iluminar, que não irá inventar. Não crie cenas, crie acidentes. Não crie esses acidentes em direção à câmera. Você não está fazendo um filme, você está metido em um acidente. Parte do acidente são seus movimentos de câmera.
11a. LIÇÃO E de repente, o grande prazer. Um plano pensado com a câmera opinando com luz artificial, com “atuações” (uma verdadeira sobremesa!). De verdade lhe digo, por este caminho você pode chegar a fazer filmes de Hollywood dos anos 40. Se você quer ser um grande cineasta de vanguarda, volte a filmar “E O Vento Levou”, exatamente igual, com atores de corpos gêmeos aos de Clark Gable e Vivian Leigh. Se conseguir que seu filme não possa ser distinguido do original, você passou à história.