Como hoje todos os brasileiros devem estar fazendo suas preces pra que o Brasil vença a seleção do Chile nas oitavas desta Copa, e como meu coração está um pouco lá, um pouco cá... me animei a falar (escrever) um pouco sobre este nosso vizinho distante...
Minha relação com o Chile começou cedo. O país entrou em minha vida aos três anos de idade, quando minha mãe, saindo do interior da Bahia para tentar a vida na selva de concreto paulistana resolveu casar com um chileno egresso da ditadura de Pinochet. Logo vieram os filhos e família começou a ouvir e falar portunhol...
Eu não morava com minha mãe... Por sorte, continuei durante bastante tempo pelos sertões da Bahia e de Pernambuco e só bem mais tarde tive que me confrontar com a cidade-pedra. Mas, SP era meu destino nas férias e, ainda que distante, o Chile passou a ser assunto “corriqueiro”, estranhamente familiar para todos nós. Já não podíamos ter a indiferença que costumamos manifestar com o que é externo a nós, estrangeiro... Já éramos parte, ainda que amorfa e incompleta, deste estrangeiro que entrou em nossas vidas fazendo-se familiar.
Lembro-me da primeira vez que mi madre foi ao Chile, trazendo de lá notícias da neve... Lembro-me dos choques culturais, dos sotaques que marcaram minha infância, dos meus irmãos dividindo a torcida entre o São Paulo Futebol Clube e o Universidad del Chile... Das lembranças, algumas não tão boas, que meu padrasto e seus conterrâneos compartilhavam, sobre o momento político que os fizeram deixar sua terra.
Tantas coisas aconteceram desde então... O Chile mudou, o Brasil mudou, nós mudamos... Meu padrasto resolveu voltar para o Chile. Minha mãe não o acompanhou. Meus irmãos cresceram. Eu vim parar aqui... Histórias fragmentadas que se montam aos poucos. Nossa história.
Hoje meus irmãos moram em Santiago, recuperando-se do abalo econômico que o país sofreu em fevereiro deste ano, depois que uma série de terremotos atingiu o sul do Chile. O segundo andar da casa do meu padrastro, hoje já com nova família, desmoronou. Minha irmã, que trabalha com turismo, ficou meses sem muitos clientes para atender...
Mas, o mundo gira e tudo muda. Hoje é feriado em Santiago, dia de San Pedro e San Pablo. As praças estão cheias de torcedores, querendo ver o seu time passar por cima do nosso verde-amarelo. O jogo vai começar daqui a pouco, mas eu ainda não liguei a TV, só escuto as imitações de vuvuzelas ecoarem.
Estou terminando de assistir um filme lindo e tocante, Chove sobre Santiago (Il Pleut sur Santiago, 1975). É sobre o golpe militar que derrubou o governo legalmente instituído de Salvador Allende e iniciou a “Era Pinochet”. Foi aí que parte da história da minha mãe, de meus irmãos e da minha também, começou... Está aí nosso ponto de fusão....
Agora já ouço o hino do Chile, o jogo vai começar!
Em tempos de Copa do Mundo, a torcida da minha mãe sempre foi para que o Brasil não enfrentasse o Chile, pra que ninguém tivesse que se dividir, se separar...
Não deu mãe... a vida é assim mesmo... Cedo ou tarde a gente se separa... Se você estivesse por aqui agora estaria com o coração dividido como estou... Torcendo pelo seu país, mas lembrando que sus niños estão lá no Chile e, por eles, também vestindo esta camisa...
Autoriza o árbitro...
Que chova então... sobre o Chile e sobre o Brasil... rios de alegria!
#### Outros filmes que falam do Chile e que eu gosto ####
1. A Culpa é do Fidel (La Faute à Fidel, França/Itália-2006):: Qualquer dia falo mais sobre esse filme, é muito bom, mostra a busca e uma garotinha que tenta entender o novo contexto político em que seus pais se meteram, quando resolveram se tornar "comunistas", trabalhando para a vitória do Allende, em 1970. O filme é francês, a menininha complexa e complexada é claro que é francesa e o título só podia ser francês... Vale a pena!
3. Por último, o já citado Chove sobre Santiago (Il Pleut sur Santiago, França/Bulgária-1975). Mais bélico, menos romantizado, nem por isso menos sensível em seu olhar histórico/documental sobre os fatos que levaram a derrubada do governo Allende em 1973.
A única coisa que não gosto muito em todos esses filmes, é que representam o olhar estrangeiro sobre o Chile. Com excessão de A Casa dos Espíritos, que é legitimamente chileno, mas com casting americano... Bom, pode ser uma visão muito limitada a minha, mas me incomoda ouvir a história do Chile ser contada em inglês ou francês... Mas, estas só são algumas das formas de contar as histórias... ainda quero conhecer mais do cinema chileno, da forma como eles mesmos se vêem e se mostram...
Enquanto isso... vamos ao jogo!!!!


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