segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Autenticidade é plágio (?)

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- Ela é incapaz de ser autêntica...
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- Ah, discordo! Ela é autêntica sim. A questão é que a autenticidade dela é só a cópia das referências que ela reconhece.
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- Então... Isso significa que ela não é autêntica. É só cópia.
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- Não necessariamente. Não somos capazes de reproduzir as coisas tal qual recebemos... Sempre colocamos um pouco de nós no que externalizamos. Sempre interpretamos.
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- Certo. Mas, o que eu tô falando é que ela só interpreta... Não consegue produzir algo que seja seu, com sua cara, com seu jeito. O jeito dela, as ações, os gestos, os pensamentos, as palavras... Tudo parece ter saído de um livro, ser refrão de uma música ou ser alucinação de algum artista francês dos anos sessenta... Parece que ela não pensa! Só repete, como papagaio, o que já foi dito...
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- Mas, e quem não repete? Alguns de forma mais sutil, outros de maneira mais despudorada, mas todos nós repetimos o que outros de nós já pensaram. Você tá querendo que ela tenha um ímpeto de criação original?
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- Nem tanto. Mas, um pouco de originalidade não seria mau... Mas, a questão aqui não é nem a originalidade – essa já dá outro livro inteiro... – o problema mesmo é a autenticidade. Eu só estou falando que ela devia ser quem ela é...
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- E você, em sua sábia iluminação, tem a audácia de dizer que ela não está sendo quem ela é? Ora! Como você pode falar isso de alguém? Por acaso você a conhece tão bem assim pra afirmar que ela não está sendo quem é? E, por acaso, pode criticar se ela é, e quer ser, a interpretação de outros que já foram? Pra mim, autenticidade é cópia... Plágio mal acabado de um idealismo romântico. Ser autêntico é interpretar as influências. Produzir é re-produzir-se. Fazer é re-fazer-se. Construir é re-construir-se... Não estamos mais no sétimo dia da criação... Já passamos do oitavo... As grandes revoluções já aconteceram. Agora vivemos uma revolução individual a cada dia, que nos refaz a cada momento. Hoje tudo está num movimento tão acelerado que penso que tudo já foi dado... Não há mais nada de novo pra fazer. E isso não significa que tudo acabou, que chegamos ao fim. Os finais são sempre inícios, não é? Nosso desafio perpétuo agora parece ser a constante arte de reinventar as coisas e os significados das coisas... Como exigir que alguém, ou algo, seja romanticamente autêntico neste mundo? Como não exigir que sejamos todos realmente autênticos em nossas interpretações? Desculpa se estou ferindo teus ideais... Mas é difícil não pensar que amanhã você usará tudo o que eu estou dizendo agora em outro círculo de amigos, em outro espaço, com outras pessoas, pra puxar uma conversar ou pra levantar uma polêmica. Tanto quanto seria ingênuo achar que o que eu penso já não foi pensado ou dito antes por tantos outros que li, ouvi, digeri e vomitei... É assim que as coisas são... Você ainda acha que ela não é autêntica?

Um comentário:

O brejo da vaca disse...

Cassandra, gostei muito deste texto.
É tão bom que deve ser um autêntico plágio.
Parabéns!!